Ferida operatória e deiscência: prevenção e cuidados
Postado em 11/10/2026
A maior parte das complicações da incisão cirúrgica pode ser reconhecida cedo. Veja como avaliar a ferida operatória, prevenir infecção e deiscência e agir quando a sutura se abre.
Por Equipe Editorial Grupo Nobre. Revisado em 11/10/2026.
Resposta rápidaFerida operatória é a incisão feita no procedimento cirúrgico, que normalmente cicatriza por primeira intenção. Deiscência é a separação das bordas dessa incisão depois do fechamento, parcial ou total, superficial ou profunda, e muitas vezes está associada à infecção de sítio cirúrgico. Os principais fatores de risco envolvem obesidade, diabetes, tabagismo, desnutrição, uso de corticoides, tensão na sutura e aumento da pressão abdominal. A prevenção começa antes da cirurgia e segue no pós-operatório com cuidado da incisão, controle glicêmico, nutrição e educação para a alta. Diante de evisceração, cubra o conteúdo com compressas estéreis umedecidas em soro fisiológico e acione a equipe cirúrgica imediatamente.
Como a ferida operatória cicatriza
A incisão cirúrgica fechada com sutura, grampos ou adesivo cicatriza por primeira intenção: as bordas ficam aproximadas e a reepitelização é rápida. Quando a ferida é deixada aberta de propósito, como em cirurgias contaminadas, ou quando se abre depois do fechamento, a cicatrização passa a ser por segunda intenção, com formação de tecido de granulação, ou por terceira intenção, quando o fechamento é feito mais tarde.
Deiscência e infecção de sítio cirúrgico
O consenso da World Union of Wound Healing Societies (WUWHS) de 2018 sobre deiscência de ferida cirúrgica define o problema como a separação das margens de uma incisão fechada e propõe uma classificação em graus, conforme a profundidade e a presença de sinais de infecção. Na prática, deiscência e infecção caminham juntas: a infecção enfraquece a cicatrização e a abertura da ferida aumenta o risco de contaminação.
| Fatores ligados à pessoa | Fatores ligados ao procedimento e ao pós-operatório |
|---|---|
| Obesidade | Cirurgias de urgência e contaminadas |
| Diabetes e hiperglicemia | Tempo cirúrgico prolongado |
| Tabagismo | Tensão excessiva na sutura |
| Desnutrição e hipoalbuminemia | Tosse, vômitos, distensão abdominal e esforço |
| Uso de corticoides e imunossupressores | Seroma, hematoma e infecção da incisão |
| Idade avançada e cirurgias prévias no local | Hipotermia e falhas de técnica asséptica |
Prevenção: o que cabe à enfermagem
As diretrizes da Organização Mundial da Saúde e dos Centers for Disease Control and Prevention (CDC) para prevenção de infecção de sítio cirúrgico, assim como o manual da Anvisa de medidas de prevenção de infecção relacionada à assistência, organizam as medidas em pré, intra e pós-operatório. Muitas delas dependem diretamente da equipe de enfermagem:
- Pré-operatório: banho pré-operatório conforme protocolo, remoção de pelos apenas quando necessária e com tricotomizador elétrico, controle glicêmico e orientação para cessar o tabagismo quando houver tempo.
- Intraoperatório: antibioticoprofilaxia no momento definido pelo protocolo, preparo da pele com antisséptico adequado, manutenção da normotermia e técnica asséptica rigorosa.
- Pós-operatório: manter o curativo estéril pelo período definido no protocolo, higienizar as mãos antes e depois de qualquer contato com a incisão, controlar glicemia e dor, estimular mobilização precoce e nutrição adequada.
- Alta: ensinar a pessoa e a família a cuidar da incisão, a reconhecer sinais de alerta e a quem procurar.
Avaliação diária da incisão
- Bordas: estão aproximadas? Há pontos de abertura, tensão ou pontos soltos?
- Pele ao redor: observe hiperemia que se expande, calor, endurecimento e edema.
- Drenagem: registre volume, cor e odor. Saída de líquido seroso abundante ou de aspecto serossanguinolento pode anteceder a deiscência de parede abdominal.
- Dor: dor nova ou que aumenta depois de um período de melhora merece reavaliação.
- Sinais sistêmicos: febre, taquicardia e piora do estado geral exigem comunicação imediata à equipe médica.
Quando a ferida já se abriu
Deiscências superficiais, sem evisceração e sem sinais sistêmicos, costumam ser tratadas com cicatrização por segunda intenção. Nesses casos, entram as ferramentas do cuidado com feridas: avaliação estruturada do leito, limpeza, desbridamento quando houver tecido inviável, coberturas adequadas ao exsudato e, quando indicado, terapia por pressão negativa. A decisão sobre nova sutura ou abordagem cirúrgica é da equipe médica.
Perguntas frequentes
Quando a pessoa pode molhar a incisão?
Depende do tipo de cirurgia, do curativo utilizado e do protocolo do serviço. Siga a orientação da equipe cirúrgica registrada no plano de alta.
Toda deiscência é infecção?
Não. A deiscência pode ocorrer por tensão, seroma, hematoma ou falhas de cicatrização. Mas a infecção é uma causa frequente e deve sempre ser investigada.
O Enfermeiro pode refazer a sutura?
A ressutura de incisão cirúrgica deiscente é decisão da equipe cirúrgica. O cuidado da ferida aberta por segunda intenção é campo de atuação do Enfermeiro.
Prevenção de infecção, cuidado perioperatório e gestão do centro cirúrgico na pós-graduação em Centro Cirúrgico, RPA e CME do Grupo Nobre.
Referências
- World Health Organization. Global guidelines for the prevention of surgical site infection. 2nd ed. Geneva: WHO; 2018.
- Berríos-Torres SI, Umscheid CA, Bratzler DW, et al. Centers for Disease Control and Prevention Guideline for the Prevention of Surgical Site Infection, 2017. JAMA Surg. 2017;152(8):784-91.
- World Union of Wound Healing Societies. Consensus document: Surgical wound dehiscence: improving prevention and outcomes. London: Wounds International; 2018.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Medidas de prevenção de infecção relacionada à assistência à saúde. 2ª ed. Brasília: Anvisa; 2017. (Série Segurança do Paciente e Qualidade em Serviços de Saúde).
- Conselho Federal de Enfermagem. Resolução Cofen nº 787, de 21 de agosto de 2025. Regulamenta a atuação da equipe de enfermagem na promoção, prevenção, tratamento e reabilitação de pessoas com lesões cutâneas.
