Ultrassom pulmonar: linhas A, B e protocolo BLUE
Postado em 11/10/2026
O pulmão cheio de ar parecia inacessível ao ultrassom, até que os artefatos passaram a ser lidos como sinais. Entenda o que são as linhas A e B e como funciona o protocolo BLUE.
Por Equipe Editorial Grupo Nobre. Revisado em 11/10/2026.
Resposta rápidaO ultrassom pulmonar se baseia na leitura de artefatos. As linhas A são reverberações horizontais da pleura e aparecem no pulmão normalmente aerado. As linhas B são artefatos verticais que partem da pleura e, quando múltiplas, indicam aumento de líquido no interstício. O protocolo BLUE, descrito por Lichtenstein e Mezière em 2008, combina esses sinais em perfis para orientar o raciocínio na insuficiência respiratória aguda. Para o Enfermeiro, o ultrassom pulmonar é uma ferramenta focada de avaliação e monitoramento, sem laudo e sem diagnóstico médico, conforme a Resolução Cofen nº 679/2021.
Por que o ultrassom funciona no pulmão
O ar reflete quase todo o feixe de ultrassom, por isso o parênquima pulmonar normal não é visto diretamente. O que se vê é a linha pleural e os artefatos que ela gera. Quando a proporção entre ar e líquido no pulmão muda, os artefatos mudam também. Essa é a base do método, consolidada nas recomendações internacionais baseadas em evidência publicadas por Volpicelli e colaboradores em 2012.
Os sinais básicos que todo Enfermeiro deve reconhecer
| Sinal | Como aparece | O que sugere |
|---|---|---|
| Deslizamento pleural | Movimento cintilante da linha pleural com a respiração | Pleuras visceral e parietal em contato naquele ponto |
| Linhas A | Linhas horizontais, paralelas e equidistantes abaixo da pleura | Pulmão aerado (ou ar no espaço pleural, se não houver deslizamento) |
| Linhas B | Artefatos verticais, hiperecoicos, que partem da pleura, chegam ao fundo da tela e se movem com a respiração | Três ou mais por espaço intercostal sugerem síndrome intersticial |
| Ponto pulmonar | Local onde o deslizamento aparece e desaparece com a respiração | Achado característico de pneumotórax |
| Consolidação | Pulmão com aspecto semelhante a tecido sólido, por vezes com broncograma aéreo | Perda de aeração, como em pneumonia ou atelectasia |
| Derrame pleural | Imagem anecoica acima do diafragma | Líquido no espaço pleural |
Uma ou duas linhas B isoladas podem aparecer em pulmões normais, especialmente nas bases. O que tem significado é a quantidade e a distribuição.
O protocolo BLUE em linguagem simples
O BLUE (Bedside Lung Ultrasound in Emergency) usa pontos padronizados no tórax, chamados pontos BLUE superior e inferior, além do ponto PLAPS, na região posterolateral, para pesquisar consolidação e derrame. A partir dos achados, o protocolo define perfis:
- Perfil A: deslizamento presente com linhas A na região anterior. Combinado com a pesquisa de trombose venosa e de PLAPS, orienta o raciocínio para outras causas, como embolia, pneumonia ou doença obstrutiva.
- Perfil A linha: linhas A sem deslizamento. Com ponto pulmonar, é altamente sugestivo de pneumotórax.
- Perfil B: múltiplas linhas B anteriores, bilaterais, com deslizamento. Associado a edema pulmonar de origem hemodinâmica.
- Perfis B linha, A/B e C: linhas B sem deslizamento, padrão assimétrico ou consolidação anterior. Associados a pneumonia.
O protocolo foi desenhado como apoio ao raciocínio clínico médico em pacientes com insuficiência respiratória aguda. A classificação final e a conduta são responsabilidade médica.
Como o ultrassom pulmonar entra no cuidado de enfermagem
Revisões sobre POCUS no Processo de Enfermagem ao paciente crítico apontam aplicações coerentes com a competência do Enfermeiro, sempre orientadas por protocolo institucional:
- Monitoramento evolutivo: comparar o padrão de linhas B antes e depois de intervenções, como a terapia prescrita para congestão, e comunicar a evolução à equipe.
- Segurança após procedimentos: checar deslizamento pleural quando há suspeita de pneumotórax após punção venosa central ou outras intervenções torácicas, acionando o médico diante de alteração.
- Ventilação mecânica: apoiar a equipe na avaliação de aeração, por exemplo diante de queda súbita de saturação, sem atrasar as medidas de suporte.
- Registro descritivo dos achados no prontuário, como dado da etapa de avaliação do Processo de Enfermagem.
Limitações que precisam ser conhecidas
Enfisema subcutâneo, curativos torácicos e obesidade dificultam a obtenção de imagens. Aderências pleurais podem abolir o deslizamento sem que exista pneumotórax. Pacientes com doença pulmonar intersticial crônica já têm linhas B de base. Por isso, o achado precisa ser interpretado no contexto clínico e pela equipe médica.
Perguntas frequentes
Qual transdutor usar no ultrassom pulmonar?
O convexo ou o setorial permitem ver linhas B e derrames. O linear oferece melhor detalhe da linha pleural e do deslizamento.
Linhas B sempre significam edema pulmonar?
Não. Indicam aumento de líquido ou espessamento do interstício, o que ocorre em várias condições. A interpretação é clínica e médica.
O ultrassom pulmonar substitui a radiografia de tórax?
Não cabe ao Enfermeiro essa decisão. O exame focado complementa a avaliação e a escolha dos exames de imagem é médica.
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Referências
- Lichtenstein DA, Mezière GA. Relevance of lung ultrasound in the diagnosis of acute respiratory failure: the BLUE protocol. Chest. 2008;134(1):117-25.
- Volpicelli G, Elbarbary M, Blaivas M, et al. International evidence-based recommendations for point-of-care lung ultrasound. Intensive Care Med. 2012;38(4):577-91.
- Lichtenstein DA. BLUE-protocol and FALLS-protocol: two applications of lung ultrasound in the critically ill. Chest. 2015;147(6):1659-70.
- Conselho Federal de Enfermagem. Resolução Cofen nº 679, de 20 de agosto de 2021.
- Conselho Federal de Enfermagem. Resolução Cofen nº 736, de 17 de janeiro de 2024. Processo de Enfermagem.
