Ultrassom gástrico: conteúdo e risco de aspiração

Ultrassom gástrico: conteúdo e risco de aspiração

Postado em 11/10/2026

Jejum informado nem sempre significa estômago vazio. O ultrassom gástrico mostra o que há no antro, mas a interpretação do risco e a conduta exigem trabalho em equipe.

Por Equipe Editorial Grupo Nobre. Revisado em 11/10/2026.

Resposta rápidaO ultrassom gástrico avalia o antro do estômago com transdutor convexo no epigástrio, em decúbito dorsal e em decúbito lateral direito. O exame classifica o conteúdo como vazio, líquido claro ou sólido e, para líquido claro, permite estimar o volume pela fórmula de Perlas, que usa a área transversal do antro e a idade. Volumes abaixo de 1,5 mL/kg são considerados compatíveis com o estômago de um adulto saudável em jejum. A estratificação do risco de aspiração e a decisão anestésica são médicas. O Enfermeiro capacitado pode realizar a avaliação focada, sem laudo, e comunicar o achado à equipe.

Por que avaliar o conteúdo gástrico

A aspiração pulmonar de conteúdo gástrico é uma complicação grave em procedimentos com sedação ou anestesia e em pacientes com rebaixamento do nível de consciência. O tempo de jejum informado é a principal referência, mas há situações em que ele não é confiável: diabetes com gastroparesia, uso de alguns medicamentos que retardam o esvaziamento gástrico, obesidade, dor intensa, trauma, gestação, urgências sem informação sobre a última refeição e pacientes que não conseguem relatar o jejum.

O ultrassom gástrico foi desenvolvido e validado principalmente por grupos de anestesiologia, com destaque para os estudos de Anahi Perlas e colaboradores, publicados a partir de 2009, que descreveram a técnica, a escala qualitativa e o modelo matemático para estimar o volume.

Técnica do exame

  1. Transdutor convexo de baixa frequência, com preset abdominal, profundidade inicial ampla e ajuste conforme o paciente.
  2. Posição inicial em decúbito dorsal: transdutor no epigástrio, em corte sagital, logo abaixo do apêndice xifoide.
  3. Identifique os marcos: o lobo esquerdo do fígado à frente, o pâncreas atrás e grandes vasos, como a aorta ou a veia cava, como referência posterior. O antro aparece entre essas estruturas.
  4. Reavalie em decúbito lateral direito: nessa posição o conteúdo se desloca para o antro, o que torna o exame mais sensível.
  5. Meça a área transversal do antro em decúbito lateral direito, entre contrações peristálticas, quando o conteúdo for líquido claro.

Como classificar o achado

AchadoAspecto ao ultrassomInterpretação habitual na literatura
Antro vazioAntro achatado, com paredes justapostas, aspecto de "olho de boi" no corte transversalSem conteúdo visível
Grau 0Vazio em decúbito dorsal e em lateral direitoEstômago vazio
Grau 1Vazio em dorsal, com pequena quantidade de líquido claro só em lateral direitoVolume compatível com jejum, baixo risco
Grau 2Líquido claro visível nas duas posiçõesVolume maior, possível risco aumentado
Líquido espesso ou sólidoConteúdo heterogêneo, hiperecoico, com aspecto de vidro fosco nas refeições recentesTratado como estômago cheio

Para líquido claro, o volume pode ser estimado pela fórmula publicada por Perlas e colaboradores em 2013: volume (mL) = 27,0 + 14,6 x área transversal do antro em lateral direito (cm²) - 1,28 x idade (anos). Dividindo o resultado pelo peso, obtém-se o valor em mL/kg. Volumes abaixo de 1,5 mL/kg são descritos como dentro da faixa normal para adultos saudáveis em jejum.

O papel do Enfermeiro

A avaliação gástrica é uma aplicação focada que pode ser realizada pelo Enfermeiro capacitado, nos termos da Resolução Cofen nº 679/2021. O que muda é o uso da informação:

  • Coletar e descrever: registrar a posição, o tipo de conteúdo visualizado e, quando aplicável, a área e o volume estimado.
  • Comunicar: informar o achado ao anestesiologista ou ao médico responsável antes de sedação, procedimento ou intubação, para que ele estratifique o risco e decida a conduta.
  • Integrar ao cuidado: associar o achado a dados como tempo de jejum, náuseas, distensão abdominal e nível de consciência, dentro do Processo de Enfermagem.

Perguntas frequentes

O Enfermeiro pode suspender um procedimento pelo resultado do ultrassom gástrico?

Não. O Enfermeiro comunica o achado e a decisão sobre manter, adiar ou mudar a técnica é médica.

Por que examinar em decúbito lateral direito?

Nessa posição o conteúdo se desloca para o antro, o que aumenta a sensibilidade para pequenos volumes.

A fórmula de Perlas vale para crianças e gestantes?

Ela foi validada em adultos. Em outros grupos, a interpretação exige referências específicas e cautela.

Aplicações focadas do POCUS

Antro gástrico, bexiga, pulmão e veia cava na habilitação em ultrassonografia do Grupo Nobre.

Conhecer o curso

Referências

  1. Perlas A, Chan VW, Lupu CM, Mitsakakis N, Hanbidge A. Ultrasound assessment of gastric content and volume. Anesthesiology. 2009;111(1):82-9.
  2. Perlas A, Mitsakakis N, Liu L, et al. Validation of a mathematical model for ultrasound assessment of gastric volume by gastroscopic examination. Anesth Analg. 2013;116(2):357-63.
  3. Cubillos J, Tse C, Chan VW, Perlas A. Bedside ultrasound assessment of gastric content: an observational study. Can J Anaesth. 2012;59(4):416-23.
  4. Van de Putte P, Perlas A. Ultrasound assessment of gastric content and volume. Br J Anaesth. 2014;113(1):12-22.
  5. Conselho Federal de Enfermagem. Resolução Cofen nº 679, de 20 de agosto de 2021.
Nós usaremos cookies para melhorar e personalizar sua experiência.