Ultrassom de partes moles: abscesso ou celulite?

Ultrassom de partes moles: abscesso ou celulite?

Postado em 11/10/2026

Pele vermelha, quente e dolorosa pode ser só inflamação do subcutâneo ou uma coleção que precisa de drenagem. O ultrassom ajuda a enxergar a diferença, desde que se conheçam seus padrões e suas armadilhas.

Por Equipe Editorial Grupo Nobre. Revisado em 11/10/2026.

Resposta rápidaNo ultrassom de partes moles, a celulite costuma aparecer como subcutâneo espessado e mais brilhante, com faixas de líquido entre os lóbulos de gordura, no padrão chamado de "pedra de calçamento", sem coleção definida. O abscesso aparece como coleção hipoecoica ou anecoica, com reforço acústico posterior e conteúdo que se move à compressão. Antes de qualquer conduta, o Doppler ajuda a descartar vasos e linfonodos. Para o Enfermeiro, o exame é uma avaliação focada que qualifica a avaliação da lesão e a comunicação com a equipe, sem laudo e sem diagnóstico nosológico.

Por que o exame físico às vezes não basta

Flutuação palpável é um sinal clássico de abscesso, mas pode faltar em coleções profundas, em pacientes com obesidade ou quando há muito edema ao redor. O contrário também acontece: uma área endurecida pode parecer coleção e ser apenas celulite. Estudos em serviços de emergência, como o de Squire e colaboradores (2005) e a metanálise de Gottlieb e colaboradores (2020), mostram que o ultrassom no ponto de cuidado melhora a identificação de abscessos em relação ao exame clínico isolado e pode mudar a conduta planejada.

Padrões de imagem que você precisa reconhecer

SituaçãoAchados típicos
Pele e subcutâneo normaisCamadas bem definidas, gordura com aspecto homogêneo e septos finos
CeluliteSubcutâneo espessado e hiperecoico; com a evolução, faixas anecoicas de líquido entre os lóbulos de gordura (padrão em "pedra de calçamento"); sem coleção
AbscessoColeção hipoecoica ou anecoica, de bordas irregulares, com reforço acústico posterior; o conteúdo pode se mover à compressão suave; ao Doppler, ausência de fluxo no centro e aumento de fluxo na periferia
Sinais de alarmeLíquido acompanhando a fáscia profunda ou focos ecogênicos com sombra suja, que podem indicar gás no tecido

Use transdutor linear de alta frequência, gel em boa quantidade e pouca pressão. Varra a área em dois planos, ultrapassando os limites da vermelhidão, e compare com a pele saudável ao lado. Em lesões muito superficiais, uma camada espessa de gel ajuda a afastar o foco do transdutor.

Armadilhas: o que pode se parecer com abscesso

  • Linfonodo reativo: forma ovalada, hilo central ecogênico e fluxo ao Doppler entrando pelo hilo.
  • Vaso sanguíneo ou pseudoaneurisma: estrutura anecoica com fluxo ao Doppler. É uma armadilha perigosa em regiões de punção arterial e em usuários de drogas injetáveis. Nunca considere puncionar uma "coleção" sem avaliar o Doppler.
  • Cisto epidermoide: lesão bem delimitada, às vezes com conteúdo heterogêneo, que pode inflamar.
  • Hematoma e seroma: coleções que dependem do contexto clínico, como pós-operatório ou trauma.
  • Corpo estranho: estrutura ecogênica, muitas vezes com sombra e halo hipoecoico ao redor.

Onde o Enfermeiro usa essa avaliação

O Enfermeiro que avalia e trata lesões cutâneas, inclusive em consultório, ambulatório de feridas e atenção domiciliar, encontra com frequência pele inflamada ao redor de feridas, de óstios de cateteres e de incisões cirúrgicas. O ultrassom focado ajuda a responder perguntas objetivas: há coleção sob esta área? Ela está aumentando em relação à avaliação anterior? Há sinal de alarme que exige comunicação imediata? Também é útil na terapia infusional, para avaliar infiltração e edema no trajeto de uma punção periférica. O achado entra no registro de enfermagem e orienta o encaminhamento. Diagnóstico, prescrição de antimicrobianos e procedimentos como incisão e drenagem seguem a competência médica e o protocolo institucional.

Perguntas frequentes

O ultrassom diferencia sempre celulite de abscesso?

Não sempre. Coleções muito pequenas, iniciais ou profundas podem não ser vistas, e o padrão de "pedra de calçamento" não é exclusivo de infecção, pois também aparece no edema por outras causas. O achado precisa ser interpretado com o quadro clínico.

O Enfermeiro pode drenar o abscesso que viu no ultrassom?

O ultrassom não amplia a competência para procedimentos. Incisão e drenagem seguem a competência médica e o protocolo da instituição.

Preciso de Doppler para esse exame?

É altamente recomendável. O Doppler é a forma mais simples de diferenciar uma coleção de um vaso ou de um linfonodo.

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Referências

  1. Squire BT, Fox JC, Anderson C. ABSCESS: applied bedside sonography for convenient evaluation of superficial soft-tissue infections. Acad Emerg Med. 2005;12(7):601-606.
  2. Gottlieb M, Avila J, Chottiner M, Peksa GD. Point-of-care ultrasonography for the diagnosis of skin and soft tissue abscesses: a systematic review and meta-analysis. Ann Emerg Med. 2020;76(1):67-77.
  3. Stevens DL, Bisno AL, Chambers HF, et al. Practice guidelines for the diagnosis and management of skin and soft tissue infections: 2014 update by the Infectious Diseases Society of America. Clin Infect Dis. 2014;59(2):e10-e52.
  4. Conselho Federal de Enfermagem. Resolução Cofen nº 679/2021. Ultrassonografia realizada por Enfermeiro. Brasília: Cofen; 2021.
  5. Conselho Federal de Enfermagem. Resolução Cofen nº 787/2025. Lesões cutâneas. Brasília: Cofen; 2025.
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