Gasometria arterial: como interpretar em cinco passos

Gasometria arterial: como interpretar em cinco passos

Postado em 11/10/2026

A gasometria arterial responde em minutos a perguntas decisivas sobre ventilação, oxigenação e equilíbrio ácido-base. Com um roteiro fixo, a interpretação deixa de ser um mistério.

Por Equipe Editorial Grupo Nobre. Revisado em 11/10/2026.

Resposta rápidaPara interpretar a gasometria arterial, siga cinco passos: 1) olhe o pH para saber se há acidemia (abaixo de 7,35) ou alcalemia (acima de 7,45); 2) veja a PaCO2 (referência de 35 a 45 mmHg) para identificar o componente respiratório; 3) veja o bicarbonato (referência de 22 a 26 mEq/L) para o componente metabólico; 4) avalie se há compensação esperada ou um distúrbio misto; 5) na acidose metabólica, calcule o ânion gap. Depois, avalie a oxigenação pela PaO2 e pela saturação, sempre considerando a fração inspirada de oxigênio. A coleta da amostra arterial, na equipe de enfermagem, é privativa do Enfermeiro.

Os valores de referência

ParâmetroFaixa de referência usualO que representa
pH7,35 a 7,45Acidez do sangue
PaCO235 a 45 mmHgComponente respiratório (ventilação)
HCO322 a 26 mEq/LComponente metabólico
Excesso de base (BE)-2 a +2 mEq/LDesvio metabólico em relação ao normal
PaO280 a 100 mmHg em ar ambiente, no adulto jovemOxigenação arterial

As faixas podem variar levemente entre laboratórios e equipamentos. Use sempre a referência do seu serviço.

Interpretação em cinco passos

  1. pH. Abaixo de 7,35 é acidemia; acima de 7,45, alcalemia. Um pH normal não exclui distúrbio, pois pode haver dois processos opostos ao mesmo tempo.
  2. PaCO2. O CO2 se comporta como ácido. PaCO2 alta com pH baixo indica acidose respiratória (hipoventilação). PaCO2 baixa com pH alto indica alcalose respiratória (hiperventilação).
  3. Bicarbonato. O HCO3 se comporta como base. HCO3 baixo com pH baixo indica acidose metabólica; HCO3 alto com pH alto, alcalose metabólica.
  4. Compensação. O organismo tenta corrigir o distúrbio primário com o sistema oposto: o pulmão compensa distúrbios metabólicos em minutos a horas; o rim compensa distúrbios respiratórios em dias. Na acidose metabólica, a fórmula de Winter estima a PaCO2 esperada: 1,5 x HCO3 + 8, com variação de 2 para mais ou para menos. Se a PaCO2 medida estiver fora dessa faixa, suspeite de distúrbio respiratório associado.
  5. Ânion gap. Na acidose metabólica, calcule sódio menos a soma de cloro e bicarbonato. Ânion gap aumentado sugere acúmulo de ácidos, como lactato e cetoácidos; ânion gap normal sugere perda de bicarbonato, como na diarreia. A albumina baixa reduz o ânion gap e pode mascarar o aumento.

Os quatro distúrbios primários

DistúrbiopHAlteração primáriaExemplos de causas
Acidose respiratóriaBaixoPaCO2 altaHipoventilação por sedação, exacerbação de DPOC, fadiga muscular
Alcalose respiratóriaAltoPaCO2 baixaDor, ansiedade, hipoxemia, ventilação mecânica com frequência alta
Acidose metabólicaBaixoHCO3 baixoChoque com hiperlactatemia, cetoacidose diabética, diarreia, insuficiência renal
Alcalose metabólicaAltoHCO3 altoVômitos, drenagem gástrica, uso de diuréticos

Exemplo: pH 7,29, PaCO2 28 mmHg e HCO3 13 mEq/L. Há acidemia, o bicarbonato está baixo (acidose metabólica) e a PaCO2 está reduzida. Pela fórmula de Winter, a PaCO2 esperada é 1,5 x 13 + 8 = 27,5, ou seja, entre 25,5 e 29,5 mmHg. Como a medida (28) está dentro dessa faixa, trata-se de acidose metabólica com compensação respiratória adequada. Se a PaCO2 estivesse acima de 29,5 mmHg, haveria acidose respiratória associada. A interpretação final depende do contexto clínico e da tendência em exames seriados.

E a oxigenação?

A PaO2 deve ser lida junto com a fração inspirada de oxigênio. Uma PaO2 de 90 mmHg em ar ambiente é muito diferente da mesma PaO2 com oxigênio a 60%. Por isso a relação PaO2/FiO2 é usada para acompanhar a gravidade da hipoxemia em pacientes com suporte de oxigênio ou ventilação mecânica. Registre sempre o modo de oferta e a FiO2 no momento da coleta.

Perguntas frequentes

Técnico de enfermagem pode coletar gasometria arterial?

Não. Pela Resolução Cofen nº 703/2022, dentro da equipe de enfermagem, a punção arterial é privativa do Enfermeiro.

O que é ânion gap?

É a diferença entre o sódio e a soma de cloro e bicarbonato. Ajuda a classificar a acidose metabólica e a orientar a busca da causa.

Gasometria venosa substitui a arterial?

Para pH e bicarbonato, a venosa pode ser útil em algumas situações, como no acompanhamento da cetoacidose. Para avaliar oxigenação, é necessária a amostra arterial.

Da punção à interpretação

A Habilitação em Punção Arterial para Gasometria e Monitorização treina a técnica de coleta e o raciocínio para interpretar o resultado.

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Referências

  1. Berend K, de Vries AP, Gans RO. Physiological approach to assessment of acid-base disturbances. N Engl J Med. 2014;371(15):1434-45.
  2. Kraut JA, Madias NE. Serum anion gap: its uses and limitations in clinical medicine. Clin J Am Soc Nephrol. 2007;2(1):162-74.
  3. Conselho Federal de Enfermagem. Resolução Cofen nº 703/2022. Atuação do Enfermeiro na punção arterial para gasometria e instalação de cateter intra-arterial. Brasília: Cofen; 2022.
  4. Conselho Federal de Enfermagem. Resolução Cofen nº 639/2020. Competências do Enfermeiro no cuidado aos pacientes em ventilação mecânica. Brasília: Cofen; 2020.
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