Delirium na UTI: como aplicar o CAM-ICU e prevenir

Delirium na UTI: como aplicar o CAM-ICU e prevenir

Postado em 11/10/2026

O delirium é frequente na terapia intensiva e muitas vezes passa despercebido, sobretudo quando o paciente fica quieto. Rastrear todos os dias com uma ferramenta validada é o primeiro passo para preveni-lo e tratá-lo.

Por Equipe Editorial Grupo Nobre. Revisado em 11/10/2026.

Resposta rápidaDelirium é uma disfunção cerebral aguda, com alteração da atenção e da consciência que flutua ao longo do dia. Na UTI, o rastreio é feito com o CAM-ICU, que avalia quatro características: início agudo ou curso flutuante, desatenção, nível de consciência alterado e pensamento desorganizado. O delirium está presente quando há as duas primeiras características e mais a terceira ou a quarta. O teste só é aplicado se o paciente responder à voz (RASS de -3 para cima). A prevenção se apoia no pacote ABCDEF, que reúne controle da dor, despertar e respiração espontânea, escolha cuidadosa da sedação, rastreio de delirium, mobilização precoce e participação da família.

Por que o delirium importa

O delirium na UTI está associado a maior tempo de ventilação mecânica, de internação e a declínio cognitivo após a alta. Ele tem três apresentações: hiperativa (agitação, tentativa de retirar dispositivos), hipoativa (apatia, sonolência, pouca interação) e mista. A forma hipoativa é a mais difícil de perceber, porque o paciente "não dá trabalho". Sem rastreio sistemático, muitos casos não são registrados.

CAM-ICU passo a passo

O Confusion Assessment Method for the Intensive Care Unit foi validado por Ely e colaboradores em 2001 em pacientes sob ventilação mecânica. Ele pode ser aplicado em pacientes intubados, porque não depende de respostas faladas.

  1. Primeiro, a RASS. Se o paciente estiver em -4 ou -5, ele não pode ser avaliado (está em coma ou sedação profunda). Reavalie mais tarde. A partir de -3, siga adiante.
  2. Característica 1: início agudo ou curso flutuante. Houve mudança em relação ao estado mental de base, ou o estado mental oscilou nas últimas 24 horas, por exemplo em escores RASS ou Glasgow diferentes?
  3. Característica 2: desatenção. Diga uma sequência de 10 letras e peça que o paciente aperte sua mão sempre que ouvir a letra combinada. Mais de 2 erros indica desatenção.
  4. Característica 3: nível de consciência alterado. Positiva se a RASS atual for diferente de zero.
  5. Característica 4: pensamento desorganizado. Faça perguntas simples de sim ou não (por exemplo, "uma pedra flutua na água?") e peça um comando de levantar dedos com uma mão e repetir com a outra. Mais de 1 erro é positivo.

Resultado: CAM-ICU positivo quando as características 1 e 2 estão presentes, junto com a 3 ou a 4.

Prevenção: o pacote ABCDEF

LetraComponentePapel da enfermagem
AAvaliar, prevenir e tratar a dorAplicar escalas de dor e reavaliar após intervenções
BDespertar diário e teste de respiração espontâneaExecutar o protocolo em conjunto com médicos e fisioterapeutas
CEscolha de analgesia e sedaçãoMonitorar a RASS e alertar sobre sedação acima da meta
DDelirium: avaliar, prevenir e manejarAplicar o CAM-ICU em cada turno, conforme protocolo
EMobilização e exercício precocesSentar, transferir para poltrona e deambular quando seguro
FEngajamento e empoderamento da famíliaFacilitar visitas e envolver a família na reorientação

Em uma colaboração de qualidade com mais de 15 mil adultos em UTIs americanas, publicada em 2019, maior adesão ao pacote ABCDEF esteve associada a menos delirium, menos coma, menos ventilação mecânica e menor mortalidade.

O que dizem as diretrizes sobre medicamentos

A diretriz PADIS de 2018 não recomenda o uso rotineiro de antipsicóticos para prevenir ou tratar o delirium. A atualização focada de 2025 manteve a ausência de recomendação a favor ou contra haloperidol e antipsicóticos atípicos, pois as evidências mostram pouco ou nenhum efeito em desfechos. A mesma atualização sugere a melatonina para melhorar o sono e a mobilização ampliada em relação ao cuidado usual. A dexmedetomidina, sugerida para sedação leve, pode reduzir o delirium.

Perguntas frequentes

CAM-ICU pode ser aplicado em paciente intubado?

Sim. O teste foi desenvolvido para pacientes em ventilação mecânica e usa respostas não verbais, como apertar a mão e acenar com a cabeça.

Com que frequência aplicar o CAM-ICU?

Os protocolos costumam prever ao menos uma vez por turno e sempre que houver mudança do estado mental. Siga a rotina da sua unidade.

Contenção mecânica previne delirium?

Não. A contenção pode aumentar a agitação e não substitui a investigação da causa. Quando necessária, deve seguir protocolo, prescrição e reavaliação frequente.

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Referências

  1. Ely EW, Inouye SK, Bernard GR, et al. Delirium in mechanically ventilated patients: validity and reliability of the confusion assessment method for the intensive care unit (CAM-ICU). JAMA. 2001;286(21):2703-10.
  2. Devlin JW, Skrobik Y, Gélinas C, et al. Clinical practice guidelines for the prevention and management of pain, agitation/sedation, delirium, immobility, and sleep disruption in adult patients in the ICU. Crit Care Med. 2018;46(9):e825-e873.
  3. Lewis K, Balas MC, Stollings JL, et al. A focused update to the clinical practice guidelines for the prevention and management of pain, anxiety, agitation/sedation, delirium, immobility, and sleep disruption in adult patients in the ICU. Crit Care Med. 2025;53(3):e711-e727.
  4. Marra A, Ely EW, Pandharipande PP, Patel MB. The ABCDEF bundle in critical care. Crit Care Clin. 2017;33(2):225-43.
  5. Pun BT, Balas MC, Barnes-Daly MA, et al. Caring for critically ill patients with the ABCDEF bundle: results of the ICU Liberation Collaborative in over 15,000 adults. Crit Care Med. 2019;47(1):3-14.
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