Protocolo RUSH no choque: papel do Enfermeiro no ultrassom
Postado em 11/10/2026
O paciente está hipotenso, taquicárdico e mal perfundido, e a causa ainda não está clara. O protocolo RUSH organiza o ultrassom em uma sequência lógica. Veja como ele funciona e onde a enfermagem entra.
Por Equipe Editorial Grupo Nobre. Revisado em 11/10/2026.
Resposta rápidaRUSH (Rapid Ultrasound in Shock) é uma sequência de ultrassom no ponto de cuidado descrita por Perera e colaboradores em 2010 para ajudar a identificar o tipo de choque. Ela avalia a bomba (coração), o tanque (volume intravascular, cavidades e pulmões) e os tubos (aorta e veias profundas). A interpretação diagnóstica e a decisão terapêutica são médicas. O Enfermeiro capacitado pode realizar componentes focados dentro da sua competência, como veia cava, pulmão e janelas do FAST, preparar o exame, registrar achados descritivos e acompanhar a resposta do paciente às intervenções.
Por que um protocolo para o choque
Choque é falência circulatória com oferta inadequada de oxigênio aos tecidos. Os mecanismos são diferentes: hipovolêmico, distributivo, cardiogênico e obstrutivo, e o tratamento de um pode piorar outro. Expansão volêmica agressiva, por exemplo, ajuda no hipovolêmico e pode prejudicar o cardiogênico. Revisamos tipos, sinais e cuidados em choque: tipos, sinais e cuidados de enfermagem.
O exame físico isolado nem sempre distingue esses mecanismos. O RUSH foi proposto para organizar a avaliação ultrassonográfica em passos fixos, para que nada importante fique de fora quando a equipe está sob pressão.
As três etapas: bomba, tanque e tubos
| Etapa | O que se avalia | Pergunta clínica |
|---|---|---|
| Bomba (pump) | Derrame pericárdico, contratilidade global do ventrículo esquerdo, tamanho do ventrículo direito | O coração está bombeando e está livre de compressão? |
| Tanque (tank) | Veia cava inferior, janelas do FAST, cavidades pleurais, pulmões (deslizamento pleural e linhas B) | Falta volume, há líquido onde não deveria ou há pneumotórax? |
| Tubos (pipes) | Aorta abdominal e veias femorais e poplíteas | Há dilatação da aorta ou trombose venosa profunda? |
Combinando os achados, o médico constrói hipóteses: coração hipercontrátil com cava colabada sugere hipovolemia ou choque distributivo; ventrículo direito dilatado com trombose venosa aponta para obstrução por embolia; derrame pericárdico com colapso de câmaras levanta suspeita de tamponamento. Essas conclusões são diagnósticas e, portanto, médicas.
O que cabe ao Enfermeiro no RUSH
A Resolução Cofen nº 679/2021 permite ao Enfermeiro capacitado usar o ultrassom no ponto de cuidado, mas veda laudo e diagnóstico nosológico. Na prática, isso define três frentes de atuação.
- Componentes focados dentro da competência. Avaliação da veia cava inferior, do deslizamento pleural e das linhas pulmonares, das janelas do FAST e da compressibilidade venosa, descritos de forma objetiva e comunicados ao médico. A ecocardiografia focada e a avaliação da aorta exigem treinamento específico e, na maioria dos serviços, são feitas pelo médico.
- Organização do exame. Aparelho pronto, transdutores corretos (setorial ou convexo para coração e abdome, linear para pleura e veias), posicionamento do paciente e controle do tempo para que o exame não atrase acesso, monitorização e tratamento.
- Reavaliação seriada. Depois de uma intervenção, como reposição volêmica ou início de droga vasoativa, o Enfermeiro acompanha perfusão, diurese, lactato quando solicitado, pressão arterial e sinais de congestão pulmonar, e comunica mudanças.
Quem quer desenvolver essas competências focadas pode buscar a Habilitação em Ultrassonografia Avançada (POCUS) do Grupo Nobre, que aborda protocolos de ultrassom no paciente crítico dentro dos limites da enfermagem.
Limites do RUSH que a equipe precisa conhecer
- O RUSH não substitui a avaliação clínica, os exames laboratoriais e a ecocardiografia formal.
- A veia cava inferior sofre influência da ventilação mecânica, da pressão intra-abdominal e da função do ventrículo direito; um único valor não define conduta.
- Janelas ruins, como em obesidade, enfisema subcutâneo ou curativos, limitam o exame e devem ser registradas como "avaliação limitada".
- O protocolo não deve atrasar intervenções que salvam vidas, como controle de hemorragia ou desfibrilação.
Perguntas frequentes
O Enfermeiro pode fazer o RUSH completo?
Os componentes que dependem de interpretação diagnóstica, como a avaliação cardíaca e da aorta, são em geral médicos. O Enfermeiro capacitado realiza componentes focados e apoia a execução do protocolo.
Qual transdutor usar?
O transdutor setorial ou o convexo atendem coração, cava e abdome. O linear é preferido para pleura e veias superficiais.
Quanto tempo leva o exame?
Depende da experiência e das janelas. O que importa é que o exame não atrase o tratamento; se isso acontecer, ele deve ser interrompido.
Desenvolva as avaliações focadas que apoiam o cuidado ao paciente em choque com a habilitação em POCUS do Grupo Nobre.
Referências
- Perera P, Mailhot T, Riley D, Mandavia D. The RUSH exam: Rapid Ultrasound in SHock in the evaluation of the critically ill. Emerg Med Clin North Am. 2010;28(1):29-56.
- Conselho Federal de Enfermagem. Resolução Cofen nº 679/2021. Normatiza a ultrassonografia realizada por Enfermeiro no ponto de cuidado e no ambiente pré-hospitalar. Brasília: Cofen; 2021.
- American College of Emergency Physicians. Ultrasound Guidelines: Emergency, Point-of-Care and Clinical Ultrasound Guidelines in Medicine. Ann Emerg Med. 2017;69(5):e27-e54.
- Volpicelli G, Elbarbary M, Blaivas M, et al. International evidence-based recommendations for point-of-care lung ultrasound. Intensive Care Med. 2012;38(4):577-91.
