Pneumotórax ao ultrassom: deslizamento pleural e ponto pulmonar
Postado em 11/10/2026
Ar entre as pleuras não aparece como imagem, aparece como ausência de movimento. Entender essa lógica é o que permite ao Enfermeiro capacitado reconhecer sinais de alerta e comunicar rápido.
Por Equipe Editorial Grupo Nobre. Revisado em 11/10/2026.
Resposta rápidaNo ultrassom pulmonar, a pleura normal desliza a cada respiração. No pneumotórax, o ar separa as pleuras e esse deslizamento desaparece. No modo M, o padrão normal lembra areia de praia (sinal da praia) e o pneumotórax gera linhas horizontais paralelas (sinal do código de barras). Linhas B e pulso pulmonar descartam pneumotórax no ponto examinado. O ponto pulmonar, onde o pulmão volta a tocar a parede, é o sinal mais específico. Para o Enfermeiro, o achado é um alerta a ser comunicado ao médico, não um diagnóstico.
Por que o ultrassom vê o pneumotórax
O ultrassom não atravessa o ar. No pulmão normal, ele mostra a linha pleural brilhante e, abaixo dela, artefatos. Dois desses artefatos importam aqui: o deslizamento pleural, que é o movimento da pleura visceral contra a parietal durante a respiração, e as linhas B, artefatos verticais que nascem na pleura e só existem quando as pleuras estão em contato. Revisamos esses padrões em ultrassom pulmonar: linhas A, B e protocolo BLUE.
No pneumotórax, o ar se interpõe entre as pleuras. O transdutor passa a ver só a pleura parietal parada, com linhas A repetidas abaixo. O deslizamento some e as linhas B desaparecem naquela região.
Técnica de exame
- Posição: paciente em decúbito dorsal, sempre que possível. O ar livre sobe para a parte anterior do tórax.
- Transdutor: linear, de alta frequência, na orientação longitudinal entre duas costelas. As sombras das costelas e a linha pleural entre elas formam o chamado "sinal do morcego", que ajuda a localizar a pleura.
- Pontos de exame: comece na região anterior do tórax, entre o segundo e o quarto espaços intercostais na linha hemiclavicular, e avance lateralmente.
- Modo B: observe por alguns ciclos respiratórios se a linha pleural "cintila" e desliza.
- Modo M: posicione a linha de amostragem sobre a pleura e compare o padrão acima e abaixo dela.
Os sinais e o que cada um significa
| Sinal | O que se vê | Interpretação |
|---|---|---|
| Deslizamento pleural presente | Movimento cintilante da linha pleural | Descarta pneumotórax no ponto examinado |
| Sinal da praia (modo M) | Linhas horizontais acima da pleura e padrão granulado abaixo | Pleuras em contato, padrão normal |
| Sinal do código de barras (modo M) | Linhas horizontais em toda a imagem | Ausência de deslizamento, compatível com pneumotórax, mas não exclusivo |
| Linhas B | Artefatos verticais que saem da pleura | Descartam pneumotórax no ponto examinado |
| Pulso pulmonar | Pequena vibração da pleura sincronizada com o batimento cardíaco | Pleuras em contato, descarta pneumotórax naquele ponto |
| Ponto pulmonar | Alternância, no mesmo local, entre padrão normal e código de barras | Sinal mais específico de pneumotórax, descrito por Lichtenstein |
Armadilhas: quando o deslizamento some sem pneumotórax
A ausência de deslizamento é sensível, mas não específica. Ela também pode acontecer em:
- intubação seletiva, quando um pulmão não está sendo ventilado;
- apneia ou parada respiratória;
- aderências pleurais, pleurodese prévia ou doença pulmonar grave com pouca expansão;
- grandes bolhas de enfisema;
- ajustes inadequados do aparelho, como ganho muito alto ou transdutor errado.
Por isso, o achado isolado não fecha diagnóstico. O contexto clínico, a ausculta, a oximetria e a avaliação médica completam o raciocínio. A capacidade de reconhecer essas armadilhas é um dos pontos trabalhados na formação exigida pela norma e na Habilitação em Ultrassonografia Avançada (POCUS) do Grupo Nobre.
Onde o Enfermeiro usa essa avaliação
- Paciente em ventilação mecânica com queda súbita de saturação ou aumento de pressão nas vias aéreas.
- Após procedimentos com risco de lesão pleural, como punção venosa central em veia subclávia ou jugular, realizada por quem tem competência para isso.
- Paciente com dreno de tórax, como dado complementar à observação do sistema de drenagem.
- Trauma torácico, dentro do eFAST, quando previsto em protocolo institucional.
Em todos os casos, o Enfermeiro registra o que viu e comunica imediatamente. A conduta, como drenagem torácica ou descompressão, é médica.
Perguntas frequentes
Deslizamento presente descarta pneumotórax?
Descarta no ponto examinado. Por isso é preciso avaliar mais de um espaço intercostal, priorizando a região anterior do tórax no paciente deitado.
O ultrassom substitui a radiografia de tórax?
Não cabe ao Enfermeiro decidir isso. O ultrassom é um dado rápido que ajuda a priorizar a comunicação; a confirmação diagnóstica e a escolha de exames são médicas.
Preciso do modo M para avaliar?
O modo B é suficiente para ver o deslizamento na maioria dos casos. O modo M ajuda a documentar e a confirmar em imagem estática.
Aprenda a reconhecer os sinais pleurais e as armadilhas com a habilitação em POCUS do Grupo Nobre.
Referências
- Lichtenstein D, Mezière G, Biderman P, Gepner A. The "lung point": an ultrasound sign specific to pneumothorax. Intensive Care Med. 2000;26(10):1434-40.
- Volpicelli G, Elbarbary M, Blaivas M, et al. International evidence-based recommendations for point-of-care lung ultrasound. Intensive Care Med. 2012;38(4):577-91.
- Lichtenstein DA, Mezière GA. Relevance of lung ultrasound in the diagnosis of acute respiratory failure: the BLUE protocol. Chest. 2008;134(1):117-25.
- Conselho Federal de Enfermagem. Resolução Cofen nº 679/2021. Normatiza a ultrassonografia realizada por Enfermeiro no ponto de cuidado e no ambiente pré-hospitalar. Brasília: Cofen; 2021.
